Boletim de 18 de outubro – Monitoramento atmostérico e de incêndios no Amazonas

Alerta de melhora parcial dos incêndios ativos com poluição ainda muito elevada

O quadro apresenta mudança material favorável na atividade recente do fogo e nas concentrações medidas pelo SELVA, possivelmente associada às chuvas e ao aumento da instabilidade atmosférica. A melhora, contudo, ainda não representa normalização. Manaus permanece pelo 11º dia consecutivo sob influência de fumaça e concentrações de PM2,5 prejudiciais à saúde, enquanto o leste do Amazonas continua com qualidade do ar ruim ou muito ruim.

Qualidade do ar em Manaus

Entre 9h29 e 9h31, as estações reais do SELVA, produto da Universidade do Estado do Amazonas — UEA, registravam em Manaus concentrações de PM2,5 entre 37,5 e 108,9 µg/m³. Entre as leituras confirmadas estavam 108,9 µg/m³ na UEA_EducAIR_2, 105,8 µg/m³ na UEA_EducAIR_9, 90,8 µg/m³ na UEA_EducAIR_1 e 82 µg/m³ na UEA_EducAIR_32.

Há melhora expressiva em relação à manhã de 17 de outubro, quando algumas dessas estações ultrapassaram 480–510 µg/m³. Ainda assim, os valores atuais permanecem muito acima do valor-guia diário da OMS para PM2,5, de 15 µg/m³. As medições do SELVA são pontuais, realizadas por sensores de baixo custo e identificadas pela própria plataforma como não regulatórias.

O IQAir registrava, às 8h, AQI 207 e PM2,5 estimado em 131,4 µg/m³, condição classificada como muito insalubre. Manaus permanecia em primeiro lugar no ranking brasileiro de cidades monitoradas pela plataforma. As estações individuais apresentavam AQI entre 179 e 253.

A divergência numérica entre SELVA e IQAir decorre da seleção de estações, horários e metodologias de agregação. As duas redes, porém, convergem quanto à permanência de um episódio sanitariamente relevante.

Itacoatiara Autazes e Parintins

O SELVA também registrava às 9h30: Itacoatiara, 58,4 µg/m³, faixa ruim; Autazes, 87,4 µg/m³, faixa muito ruim; e Parintins, 89,7 e 89,9 µg/m³ em duas estações, faixa muito ruim.

A distribuição espacial confirma que a deterioração não está limitada a Manaus e permanece relevante no eixo centro-leste do Amazonas.

Focos do INPE e evolução nas últimas 48 horas

O satélite oficial de referência AQUA_M-T registrou 78 focos no Amazonas em 17 de outubro, contra apenas três em 16 de outubro. Houve, portanto, retomada diária das detecções após o valor excepcionalmente baixo do dia 16.

Na comparação entre janelas completas de dois dias, porém, o quadro ainda aponta redução: foram 81 focos em 16–17 de outubro, contra 191 em 15–16 de outubro, queda aproximada de 58%. Esses números representam detecções térmicas pelo satélite de referência e não equivalem à quantidade de incêndios ainda ativos em campo. Os dados de 18 de outubro estavam parciais e ainda sem a passagem diária completa do AQUA_M-T.

No acumulado de 1º a 17 de outubro, o Amazonas somava 1.908 focos AQUA_M-T. No ranking nacional municipal, destacavam-se Lábrea, em 9º lugar, com 257 focos; Autazes, em 13º, com 197; Boca do Acre, em 14º, com 189; Itacoatiara, em 18º, com 133; Novo Aripuanã, em 27º, com 101; Guajará, em 39º, com 76; Maués, em 47º, com 63; e Boa Vista do Ramos, em 55º, com 60.

Manaquiri acumulava 53 focos; Borba e Careiro da Várzea, 51 cada; Humaitá, 50; Careiro, 45; Nhamundá e Urucurituba, 44 cada.

Oeste do Pará e contribuição potencial para a fumaça

O Pará acumulava 6.840 focos AQUA_M-T entre 1º e 17 de outubro. São Félix do Xingu liderava o ranking nacional com 734 focos, seguido de Altamira, com 612, e Uruará, com 519. Também apareciam entre os primeiros colocados Itaituba, com 401; Aveiro, com 340; Santarém, com 319; Mojuí dos Campos, com 246; Placas, com 245; e Óbidos, com 241.

A concentração de focos no oeste paraense representa fonte potencial de fumaça para o leste do Amazonas, sobretudo quando a circulação atmosférica se estabelece de leste para oeste. Nesta manhã, porém, os ventos fracos e variáveis e a ausência de análise específica de trajetórias impedem atribuir a pluma sobre Manaus a municípios determinados do Pará.

Monitor da UFAM na Região Metropolitana de Manaus

A atualização do projeto da Universidade Federal do Amazonas — UFAM, gerada às 8h34 de Manaus, abrangendo janela móvel iniciada em 16 de outubro, indicava 15 eventos ativos e 413 classificados como extintos na região monitorada.

Os eventos ativos estavam distribuídos em Manacapuru e Itacoatiara, com quatro cada; Manaquiri, com três; e Rio Preto da Eva, Beruri, Manaus e Autazes, com um cada. As passagens noturnas mais recentes do VIIRS registraram 14 detecções pelo NOAA-21 e 37 pelo NOAA-20.

A queda de 175 para 15 eventos ativos em relação à atualização anterior constitui sinal relevante de melhora regional. A classificação de extinção, entretanto, resulta da ausência de nova detecção dentro da janela adotada e pode ser influenciada por nuvens, horário orbital e resolução dos sensores.

Painel do Fogo do Censipam

O Painel do Fogo do Censipam apresentava 504 eventos agrupados no Amazonas, sendo 177 ativos e 327 em observação. Na consulta anterior eram 256 ativos, o que representa redução aproximada de 31%.

Os maiores números de eventos ativos estavam em Autazes, com 29; Borba, 15; Itacoatiara, 14; Manaquiri e Novo Aripuanã, dez cada; Careiro, nove; e Maués, Parintins, Barreirinha, Nova Olinda do Norte e Manacapuru, oito cada.

Persistiam eventos de longa duração: Boa Vista do Ramos–Urucurituba, 50 dias; Autazes–Careiro da Várzea, 40 dias, com interseção indicada com a Terra Indígena Gavião; Boa Vista do Ramos–Maués, 39 dias; e Manaquiri, 36 dias, com indicação da Terra Indígena Vista Alegre.

No Pará, o painel registrava 576 eventos ativos, contra 850 na consulta anterior. Altamira tinha 60; São Félix do Xingu, 59; Itaituba, 37; Portel, 30; Óbidos, 25; Uruará e Aveiro, 24 cada; e Placas e Oriximiná, 23 cada.

Os eventos do Censipam são agrupamentos espaciais e temporais de detecções. Não devem ser somados nem comparados diretamente aos focos AQUA_M-T, nem interpretados como área efetivamente queimada ou pluma de fumaça.

Chuva ventos e tendência nas próximas 24 a 72 horas

O INMET mantém alerta amarelo de tempestade e chuvas intensas para Manaus e outras áreas do Amazonas. São previstos episódios de 20 a 30 mm por hora ou até 50 mm por dia, com rajadas entre 40 e 60 km/h. Os avisos alcançam 18 e 19 de outubro, com alerta de chuvas intensas vigente até a manhã de terça-feira, 20 de outubro.

A previsão indica pancadas de chuva neste domingo, tempestades na segunda-feira e novas chuvas rápidas na terça. O boletim semanal do INMET prevê precipitação distribuída sobre boa parte do Amazonas, com acumulados superiores a 150 mm principalmente no centro-oeste do estado.

A chuva e as rajadas podem reduzir temporariamente as concentrações de partículas, elevar a umidade e dificultar a propagação superficial do fogo. O efeito será irregular: incêndios persistentes, material combustível seco e novas ignições podem manter emissões mesmo após precipitações isoladas.

A projeção horária do IQAir indica redução gradual do AQI ao longo da tarde e melhora adicional durante a madrugada, mas ainda com valores prejudiciais à saúde. Para segunda-feira, o modelo mantém AQI em faixa insalubre em parte do dia. Trata-se de estimativa de modelo, sujeita à localização e intensidade efetiva das chuvas.

Situação dos rios

A vazante permanece confirmada.

No baixo rio Negro, o último dado publicado pelo Porto de Manaus continua sendo o de 16 de outubro: 17,43 metros, queda de quatro centímetros. Não havia medição posterior disponível na consulta, portanto não se pode afirmar estabilização ou repiquete.

No Alto Solimões, os últimos dados disponíveis indicavam Iquitos em 78,10 metros e Tabatinga em 1,75 metro em 17 de outubro, ambos ainda em queda. Em 18 de outubro, a PROA já mostrava nova redução em Itacoatiara, de 4,08 para 4,01 metros, e em Santo Antônio do Içá, de 2,72 para 2,52 metros. As medições de Iquitos e Tabatinga para o dia 18 ainda estavam ausentes.

Avaliação do risco e confiança

O quadro de hoje combina melhora material na quantidade de eventos ativos e redução das concentrações extremas de PM2,5, mas ainda mantém risco atmosférico elevado. A chuva prevista aumenta a probabilidade de alívio entre hoje e segunda-feira; não há base para considerar encerrada a crise.

A confiança é alta para a melhora observada nas estações do SELVA e para a redução dos eventos ativos nos monitores UFAM e Censipam; moderada para sua manutenção nas próximas 48–72 horas, devido à irregularidade das chuvas, à persistência de incêndios e à possibilidade de novas ignições.

Implicações operacionais prioritárias

Defesa Civil, saúde e municípios devem manter acompanhamento horário da qualidade do ar e dos eventos ativos. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares devem evitar esforço externo enquanto o PM2,5 permanecer acima de 50 µg/m³. Escolas e serviços de assistência devem conservar planos de suspensão ou adaptação de atividades externas.

O combate e a fiscalização devem priorizar Autazes, Itacoatiara, Manaquiri, Borba, Careiro, Careiro da Várzea, Maués, Parintins, Boa Vista do Ramos e Urucurituba, sem perda da atenção a Lábrea e Boca do Acre. Os municípios devem documentar brigadas mobilizadas, área atendida, tempo de resposta e providências de saúde pública, permitindo posterior avaliação de responsabilidade administrativa e efetividade do gasto.

Impactos financeiros e passivos potenciais

A persistência e a retomada dos incêndios, acompanhadas de poluição atmosférica elevada, indicam risco de aumento dos custos de combate, fiscalização e atendimento à saúde, além de despesas futuras com recuperação ambiental e assistência às populações afetadas. A continuidade desse quadro favorece a acumulação de passivos socioambientais e pressões fiscais sobre os orçamentos de Defesa Civil, saúde e clima.

Os resultados observados recomendam avaliar se os recursos mobilizados estão produzindo proteção proporcional à gravidade da crise. Contudo, os dados ambientais, isoladamente, não demonstram desperdício ou ineficácia dos gastos: sem a confirmação oportuna de informações sobre execução orçamentária, cobertura das operações e danos evitados, essa avaliação provisória permanece uma estimativa qualitativa de risco fiscal, sem valor monetário atribuível neste momento.

Fontes

INPE — Situação Atual das Queimadas

INPE — arquivos diários de focos

SELVA — UEA

Monitor de Queimadas — UFAM

Painel do Fogo — Censipam

IQAir — Manaus

INMET — previsão semanal de 13 a 20 de outubro

Porto de Manaus — nível do Rio Negro

PROA — nível dos rios

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